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Sexta-feira, 31 de Dezembro de 2010
MENINOS MAROTOS…

(Esta é a história de natal que o André me contou e eu escrevi no computador)

 

Era dia de Natal. Na fábrica dos brinquedos os duendes estavam a trabalhar.

Entretanto chagaram à fábrica três meninos para escrever na lista do Pai-Natal os seus nomes.

Mas eles não tinham a chave da porta do quarto do Pai-Natal onde ele guardava a lista dos nomes. Tanto procuraram que encontraram a chave. Abriram a porta e escreveram os seus nomes na tal lista.

Os duendes ainda não tinham acabado de construir os brinquedos. Porém, alguns já estavam arrumados no saco do Pai-Natal.

Os meninos correram em direcção à saída da fábrica e foram de encontro a uns bonecos que tinham umas chaves dentro deles. Eles bateram nos bonecos e as chaves espalharam-se. E a chave do quarto do Pai-Natal caiu no meio das outras. Procuraram a chave especial até que a encontraram.

Dirigiram-se ao quarto do pai-Natal e colocaram a chave no seu lugar.

Foram-se embora, mas com algum medo de serem castigados. Todavia o Pai-Natal esqueceu-se de os castigar.

 

 

André Costa

 



publicado por bernardetecosta às 11:21
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Quinta-feira, 16 de Dezembro de 2010
TEATRO INFANTIL - O PAI-NATAL VEM À ESCOLA

    

 

O PAI-NATAL VEM À ESCOLA

 

A cena decorre numa sala de aula, onde a professora e uma turma de crianças do 2ºano cumprem com as suas tarefas escolares)

Ouve-se bater à porta.

 

Menino – Ouvem? Estão a bater à porta!

Todos - Quem será?

Menino – Já vamos ver.

 

(Vai abrir a porta, depois da mestra anuir com um gesto)

 

Pai-Natal – Oh! Oh! Oh!, aqui estou. E bem acompanhado!

Super-Homem – Sou eu, sou! Com a minha super-ajuda o Pai- Natal será mais despachado!

 

(Os meninos ficam muito surpreendidos e ouvem-se vozes de espanto)

 

Pai-Natal Então, meninos! Digam ao super-homem “muito obrigado”. É que sou muito velho e estou muito cansado!

Todos – Obrigados Super-homem!....

Menina – Senta-te nesta cadeira, Pai-Natal!

Pai-Natal – Bem preciso. Muito obrigado, menina.

Ora vamos lá ver se temos prendas para todos!...

Menina – Pai-Natal trouxeste o que pedi? A mais bela Barby que já vi?

Pai-Natal – Oh! Oh! Oh!, está aqui, está aqui!

Menino – E para mim? Pedi-te uma guitarra!

Pai-Natal – Procura aí super-homem, dá a guitarra que canta como uma cigarra!

Menino –  Pai-Natal, só quero paz para o mundo.

Pai-Natal – Hum! super-homem procura bem aí no fundo. Bem difícil será de encontrar!

Super-Homem – Aqui não encontro. O homem só pensa em lutar!

Pai-Natal – Não fiques triste, menino. Alguma paz se há-de arranjar.

Menina – Eu Pai-Natal, falei-te duma casinha de bonecas...

Super-Homem – Aqui tens. Mas as bonecas são todas carecas!!!

Menino – Eu… desejava tanto  um mundo melhor. Há tantos meninos com fome!!!

Pai-Natal – Ah!, a tua carta estava cheia de amor ! Só te esqueceste de pôr o nome!

Menina – Pai-Natal, não te esqueceste daquela jóia preciosa, pois não?

 

Pai-Natal – Aqui a tens. Mas não deves ser tão vaidosa.

Menino – Eu, Pai-Natal, queria que o Benfica fosse campeão!!!....

Super-homem – Ah! Aquela carta tão divertida! Diz lá, Pai-Natal, qual a tua intenção!

Pai-Natal – Hm!... Para já ficas com este cachecol como recordação.

Menina – Eu sou muito estudiosa. Pedi-te uma caneta maravilhosa.

Pai-Natal – Aí super-homem, essa caneta cor-de-rosa.

Menino – Pai-Natal, trouxeste a minha bola de futebol?

Pai-Natal – Vê lá, super- homem, se consta do meu rol. Não há sábado sem sol nem menino sem futebol.

Menina – Eu queria, eu queria...saúde para a minha avó!

Pai-Natal – Claro, vou tratar disso. Mas não a deixes ficar só.

Menina – Pai-Natal...eu não tenho coragem...

Pai-Natal - Diz lá, menina. Queres fazer uma viagem?

Menina – Não, Pai-Natal. Eu queria ser uma super-mulher. Ajudar-te sempre no que puder e voar por esse mundo fora. E sempre que visse guerra e luta, usar o meu poder e a minha força lembrando aos homens que, pelo menos no Natal, se devem esquecer de fazer mal.

Pai-Natal – Oh! Oh! Oh! Agora, já tenho super-homem e super-mulher. Vamos os três embora. Nossa tarefa é cumprida.

Super-homem – Espera aí Pai-Natal que meu fato é especial. Preciso de duas palavras mágicas para dar a partida: acatrapá, acatrapim...

Menina – Esperem por mim...Preciso de ir à costureira… Ser super-mulher não é nenhuma brincadeira!

 

(Saem os três muito entusiasmados, o Pai Natal deixando o seu eco reconhecido. HO!HO!HO!, enquanto o super-homem agarra fortemente na Menina  e leva-a pelo ar…)

 

 

FIM

 

Bernardete Costa

 

                  



publicado por bernardetecosta às 17:38
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Segunda-feira, 29 de Novembro de 2010
O PRESÉPIO ONDE FALTAVAM A VACA E O BURRO

 

Uma estrela muito especial brilhava na noite alta.

Era noite de Natal.

Uma história milenar acontecia no interior duma gélida cabana todos os anos, no mês de Dezembro.

José e Maria sorriam enternecidos para o menino que, embrulhado em panos, dormia. Os anjos cantavam solenemente e irradiavam a sua luz de prata naquele espaço desconfortável e frio onde, como é de calcular, não havia nem lâmpada eléctrica nem sequer uma vela. E que falta fazia um aquecedor!

Era uma cena familiar. Linda de se ver e ouvir: os pais enternecidos, o menino dormindo, os anjos entoando cânticos melodiosos, e aquela luz maravilhosa que dava um toque de magia ao desolado espaço da cabana! Também já a estrela cadente se deslocava pela altura da noite, enquanto os três reis magos, vestidos de púrpura e oiro, em cima dos seus camelos, tomavam toda a precaução para não se desviarem do caminho que ela indicava.

Tudo se passava conforme as profecias: o nascimento de um menino, os cuidados e amor de Maria e José; até os reis magos,  ansiosos por encontrar o menino a quem a mãe chamou Jesus, levavam os seus presentes: açafrão, oiro e mirra.

Porém, alguma coisa não batia certo! Se naquele lugar não havia luz eléctrica, já aqui foi dito, e, como é óbvio, nem aquecedor ou radiador, como é que aquela criança resistia ao frio naquela noite gelada?

O burro e a vaquinha!; eles se encarregarão de aquecer o menino. Só que burro e vaquinha não faziam parte daquele cenário de ternura.

Assim, como mel para a abelha, faltam estes personagens neste presépio verdadeiro. Por onde andarão, não sabem a falta que fazem?, que só o seu sopro permitirá aquecer o  menino que já tirita de frio?

 

Entretanto, vindo do longe, um sussurro de vozes ecoa pelo vale mergulhado no silêncio:

- Ai, burro, estás tão atarefado a namorar a mula, que te esqueceste completamente de que hoje é dia de Natal!

- Ora, e tu vaca, muito bem instalada na cama de palha, no aconchego do teu curral…! A ruminar, a ruminar..., queres lá saber do menino que padece de frio! Só pensas em ti. Nessa tua vidinha tão pacata, tão confortável…Nem acredito que te tenhas esquecido! Enquanto que eu esqueci-me mesmo, com estes afazeres...

- Grande trabalho o teu! O namoradeiro, que apesar da noite e do frio não deixa de espreitar a mula nos seus preparativos para se deitar!

- E já agora, diz-me lá dona vaca, não fazes também parte da história

que acontece no Natal? E se és tão nobre e melhor do que eu, não devias estar já junto do menino fazendo de aquecedor?

- Pois sim…- tentou argumentar a vaca, - acontece que este ano estou de folga.

- Ora, ora, estás tanto de folga como eu! Quem te deu a folga, diz lá? - retorquiu refilão o burro.

- Bem, a verdade, verdadinha, é que pensei que depois de tantos anos o menino Jesus já não precisasse de mim. Sabes, o progresso...

O progresso é só para alguns – interrompe o burro. Este menino é diferente. Traz a mensagem da humildade e da paz. Imagina que nem quarto de pensão arranjou para nascer. Com o José desempregado e os preços que se praticam por aí, onde arranjariam eles dinheiro, diz-me lá?

- Ai, burro, e se ele morre de frio! Ai, que já não me aguento com os remorsos! – remói a vaca.

- Cala-te, vaca azarenta! Bem podias ter-me lembrado mais cedo que era dia de Natal! Sabes como é, esta minha memória já não é o que era...Esqueci-me...- tentou desculpar-se o burro.

- Vai convencer outro, burro alcoviteiro!

- Ó vaca, não fujas também às tuas responsabilidades, não metas a

cabeça na areia como a avestruz! Se quiseres e concordares abandonamos os dois o conforto das nossas vidas, e ala que se faz tarde! Despachemo-nos, vamos até à cabana do costume. É no mesmo lugar?

- Sim, é em Belém. A história é repetida e é lá que sempre acontece.

 

Bernardete Costa

 

 



publicado por bernardetecosta às 23:11
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Quarta-feira, 7 de Abril de 2010
O CONDE DE ODIÁXERE

Há muitos, muitos anos, viveu no Algarve, numa pequena terra chamada Odiáxere, um conde que, ao contrário dos seus antepassados, era, mau, muito mau. Possuía um prazer inexplicável em magoar conhecidos e desconhecidos. Fazia mal e não sentia remorsos das suas irresponsáveis e gravosas atitudes. Era mais bicho do que homem, porque homem tem alma e coração onde se aconchega a bondade; até bichos havia por aquelas localidades que exibiam maior humanidade do que esta terrífica personagem.

 

Um dia, as fadas da floresta, aborrecidas com tanta maldade, resolveram castigá-lo. Em princípio, as fadas não apreciam castigar seja quem for, pelo contrário, são muito carinhosas e sentem-se imensamente felizes a fazer o bem. Neste caso, porém, o conde precisava de uma lição.

 

Uma delas, vestida com trajos de mendiga, foi pedir esmola ao castelo onde residia o conde. Foi muito maltratada com palavras ferinas e fecharam-lhe a porta na cara. Pesarosa, a fada logo fez levantar uma forte tempestade; um pavoroso furacão vindo do longe envolveu por completo o palácio do conde.

Quando a poeira erguida pelo vento assentou nos luxuriantes jardins, o conde que por ali andava a passear, viu-se no reflexo das águas agora tranquilas do lago: haviam-no transformado num burro doirado com crinas de oiro!

O conde, enfurecido como nunca, não como um burro que agora era, mais como um touro a que se semelhava, concluindo que uma maldição caíra sobre ele, de imediato deixou o castelo para descobrir quem o havia enfeitiçado.

 

O certo é que, sempre que o burro de crinas de oiro se aproximava de pessoas, estas, ambiciosas, corriam atrás dele e puxavam-lhe pelas crinas doiradas.

 

E assim se passaram anos…

 

Cansado de tanto fugir e da dor que sentia sempre que uma crina lhe era arrancada, passou a viver escondido nas dunas e nos campos áridos que existiam perto das falésias do mar.

 

Entretanto, a fada que lhe lançara o feitiço, vestida de rendas por onde cintilavam estrelas, sentiu-se condoída do desgraçado homem e disse-lhe:

 - Fui eu que te amaldiçoei pela tua maldade. Mas posso desfazer o teu encantamento: desaparecerá logo que aprendas a amar.

O conde malvado deu uma forte gargalhada!

- Eu nunca amei ninguém – troçou –, não sei como será isso possível agora!

A fada sorriu com alguma tristeza e logo desapareceu voando por entre a transparência das nuvens levíssimas de verão.

 

Num dia, estava o burro a contemplar o mar alterado e negro quando deparou com uma embarcação que sob uma forte tempestade se esforçava por atracar na praia.

Mal os seus tripulantes saltaram sobre as areias finas avistaram o burro doirado e, de imediato, pensaram em capturá-lo. Somente o capitão o conseguiu depois de muitos esforços gorados.

O conde, ou seja, o burro das crinas de oiro, logo ali lhe prometeu toda a ajuda necessária, alimentos, vestuário, madeira para consertar o barco…, se o libertassem.

Assim fez o capitão. Por sua vez o burro contou todo o seu drama de enfeitiçamento. O marinheiro disse:

- Eu não sou ninguém importante, mas sei amar. Levar-te-ei comigo e talvez possas aprender tão bela virtude.

Entretanto, o capitão, com as riquezas que trazia no seu navio, comprou um magnífico castelo onde instalou o burro que ficou sob a sua protecção.

 

Um dia, o castelo do capitão foi assaltado pelos seus inimigos. O burro fugiu e escondeu-se num poço. No fundo estava uma bela escrava que também lá se refugiara. A escrava querendo encorajar o burro, prontamente o abraçou num afago doce e terno.

Decorreram somente uns segundos, e, de imprevisto, o burro sentiu brotar do seu coração de homem um sentimento sublime ainda que desconhecido.

Foi o tempo de contar até três, e transformou-se no belo conde.

O seu feitiço havia terminado porque passara a albergar no seu coração, outrora empedernido, o sentimento do amor.

 

(Lenda adaptada) Bernardete Costa



publicado por bernardetecosta às 13:13
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Quinta-feira, 25 de Março de 2010
O ELEFANTE INSATISFEITO

O elefante Gualtar havia sido transformado pela Fada Traquina. Alterara a sua fatiota cinza e vulgar numa vestimenta cor-de-rosa, e ainda o dotara com umas asas quase transparentes tão semelhantes às de certas fadas.

O certo é que Gualtar passou a ser o elefante mais bonito mas também o mais esquisito daquelas bandas.

Com este traje, e voando sobre as árvores da floresta, mesmo ao longe, todos os animais adivinhavam a presença do elefante:

- Olha o Gualtar…

-  É o Gualtar…

Claro que o Gualtar não achava piada, porque a sua chegada deixara de ser uma surpresa.

Passou a andar muito aborrecido e a questionar a beleza da sua fatiota e a capacidade de voar sobre as coisas.

A fada, para o animar, com a varinha de condão, fê-lo invisível. Podia ele agora até brincar desafiando o Senhor Leão que dormia a sesta no outro lado da floresta.

Senhor Leão, de tanto ouvir restolhar e patadas ecoar sem animal divisar, começou a resmungar:

- Quem não me deixa dormir a sesta, fora desta floresta!

O elefante Gualtar muito se divertia com a nova brincadeira. Somente a fada, já agastada, resolveu contar ao leão do que se tratava. E logo lhe prometeu também a ele o tornar invisível.

Senhor Leão, agora também invisível, ao escutar a restolhada que o elefante fazia, prestes a ele se chegou e... rugiu, rugiu com quanta força tinha!

O elefante, pensando ser magia perigosa e com ela correr risco de vida, de imediato procurou a fada para que lhe vestisse a sua antiga roupa assim como lhe restituísse as asas que, bem vistas as coisas, o convertia no animal mais especial daquelas bandas.

A Fada Traquina assim fez:

Contou até três e, de repente, na sua frente, o nosso amigo Gualtar surgiu vistoso e mais alegre do que nunca.

Claro que o leão também ganhou de novo todo o seu pêlo e farta cabeleira. E lá continuou tranquilo a dormir a sesta sem que animal algum o perturbasse na sua floresta.

 

Bernardete Costa



publicado por bernardetecosta às 22:06
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Quinta-feira, 25 de Junho de 2009
O NOME SEM MENINO E O MENINO SEM NOME

O nome Leopoldo vagueava, perdido e mais ainda desconsolado, pela floresta dos nomes, porque nunca achara um menino que o desejasse. Por isso, achava-se feio, desinteressante, …e completamente imprestável; ainda que, como nome tivesse nascido num dia muito especial, daquela floresta também especial fadada para o nascimento dos nomes e onde tudo era extraordinário.

Não restava dúvida alguma, a sua tristeza aumentava com o decorrer do tempo, tendo em conta que já haviam partido daquelas paragens outros nomes nascidos muito depois dele, porque, sem esforço, encontraram pretendente, naquela floresta mágica. Como dissemos, ele não se sentia feliz, sendo que era imperativo descobrir um menino que usasse o seu nome: Leopoldo para aqui, Leopoldo para acolá…
De outro modo, ninguém chamaria por si e acabaria, sem remédio, por desaparecer da face da terra como o nome mais antipático que houvesse nascido na floresta dos nomes.
Andava nestas cogitações, quando junto ao lago dos nenúfares se apercebeu que, sentado num deles, se encontrava um menino minúsculo, a olhar para ele muito entristecido. O seu coração de nome deu um salto parecendo sair-lhe pela boca de nome. Então, intrigado, ele quis saber quem era a criança e perguntou:
- Quem és tu? Como te chamas?
- Não vês que sou um menino? - respondeu com outra pergunta a criança aborrecida. E acrescentou: - É verdade, sou um menino muito triste porque não tenho nome!
O coração de Leopoldo quase paralisou de expectativa: um menino sem nome… Teria, por fim, encontrado o seu destino?
- Como, não tens nome? – inquiriu – Com certeza és tu que me estás destinado…
– Calma aí! - interrompeu o miúdo. -  E como te chamas?, não sei se irei gostar de usar o teu nome… Sabes como é, fica registado para toda a vida; o nome é uma coisa importantíssima, se não gostamos fica-se perdido dentro dele… e extraviado já eu estou desde que nasci.
Entretanto, no reino vizinho daquela floresta peculiar, um jovem rei e a sua jovem rainha cavalgavam nos seus lustrosos e majestosos corcéis. A rainha era muito bela, porém, uma sombra de tristeza envolvia-a como um manto pardacento, porque, apesar de muitas tentativas, não conseguira ainda conceber uma criança; o rei para a distrair resolveu brincar com ela e disse:
- Vamos fazer uma corrida? Quem chegar primeiro à orla daquela estranha floresta, e ninguém até hoje teve coragem de nela entrar,
provará a todo o reino que é o mais valente. Como recompensa receberá um tesouro maravilhoso.
Partiram ao mesmo tempo como se um golpe de vento os empurrasse, porém foi a rainha que chegou primeiro e não hesitando, penetrou na escuridão da floresta. Cavalgou leve como uma brisa durante algum tempo, até que o sussurro de vozes a conduziu perto de um lago repleto de trémulos e coloridos nenúfares.
Qual o seu espanto quando reparou numa belíssima criança que mexia os lábios e gesticulava os braços como se conversasse com alguém! Olhou um pouco receosa para todos os lados, mas não viu monstro ou bruxa que a pudessem apoquentar.
De imediato, apeou-se do seu ginete cuja pelagem se assemelhava a veludo doirado e aninhou-se na alcatifa verde da floresta, o mais perto possível do nenúfar onde se instalava a minúscula criança.
- Olá, disse, quem és, que fazes nesta floresta tão estranha?
O menino abriu com espanto os olhos verdes d’ água e ficou mudo perante aquela jovem mulher! Ela falava com uma voz tão terna e tão doce que logo se aninhou no seu coração minúsculo. Queria tanto ser gentil com ela! Ainda hesitou um pouco à procura dum nome que a pudesse impressionar, pois adivinhava como quem adivinha coisas sem qualquer explicação, que era esta a mulher que o receberia como filho.
Então, como se um raio de luz tivesse clareado toda a floresta, olhou para o seu recente amigo e sem hesitar mais, respondeu:
- Eu chamo-me Leopoldo!
- Que lindo nome tens! – exclama a bela rainha batendo palmas de felicidade. Tens o nome do avô do meu rei e senhor. És tu o filho que há muito ambicionava!
De imediato, o menino se aninhou nos seus braços e, sentindo o bater doce do coração de mãe, adormeceu no aconchego tranquilo e morno do seu colo maternal.
Entretanto, no exterior da floresta, o jovem rei, já um pouco aflito e disposto a penetrar naquela sinistra mata, gritou de alívio quando vislumbrou a cavaleira:
- Ó, até que enfim…Mas, minha senhora e rainha, que trazes nos teus braços?
- Trago o nosso filho Leopoldo, aquele por quem há muito esperávamos. Agora temos de aguardar que cresça um pouco no conforto do nosso amor, e depois apresentá-lo-emos a todos os nossos súbditos como o sucessor legítimo do nosso reino.
Foi assim, que a rainha desta história, como
prova da sua coragem,
recebeu o mais valioso tesouro que lhe
poderiam oferecer.
                                      
Bernardete Costa


publicado por bernardetecosta às 23:15
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Quarta-feira, 22 de Abril de 2009
O LÁPIS AZUL

Era uma vez....

Pois sim, comecemos também deste modo esta pequena história que não fala de reis nem de princesas, nem sequer de fadas ou bruxas. Uma narração que nos fala de um lápis. O Lápis Azul, assim se chamava, cuja felicidade suprema era ser manuseado pelo João enquanto coloria os seus desenhos.
Um lápis azul que teve a pouca sorte, até para ser lápis é preciso ter alguma sorte, de tombar da caixa onde se encontrava bem instalado e ser, de imediato, recolhido pelas mãos abusivas de uns homens estranhos.
Essas mãos começaram por lhe dar um uso inusitado: em vez dos lindos desenhos e pinturas a que ele estava destinado – pensava o lápis, ingénuo que ele era –, estampava fortes e longos riscos sobre livros, revistas, jornais, imaginem!, até o ousaram passar sobre fitas de cinema, e que arrepio lhe dava na espinha sempre que o fazia!
Ora, a partir de então, os trabalhos do João nunca tinham o céu colorido. Era sempre branco. Porquanto João usava todas as cores do seu estojo de desenho, menos o azul que havia perdido, não sabia muito bem como.
Todavia, por vezes, escutava o pai falar de um tal lápis azul que riscava…riscava… E era quando uma luz de esperança lhe dizia ser esse o seu lápis, o único que lhe faltava na sua caixa de trabalho.
E João tinha um sonho: descobrir o seu paradeiro.
Até que num belo dia de Abril, João aventurou-se à procura do seu tão saudoso Lápis Azul. Tinha mesmo de ser, era imperioso dar cor à moradia do sol, pois este, sozinho no céu, sentia-se desamparado e triste, muito triste, como uma planta que brotasse isolada no meio do deserto.
Encontrou-o passado muito tempo: velho, alquebrado e gasto pelo uso e pela idade, recolhido naquela secretária, naquele escritório aonde o sonho o levara.
- Ó meu lindo Lápis Azul...Como estás?!, é preciso salvar-te!...
E por mais que aqueles homens estranhos o procurassem nunca mais o encontraram. Porque passou a estar muito bem guardado na estojo de pintura do João. Ou então passava o tempo ocupado, e bem vigiado, claro!, estampando o imenso azul onde o sol morava, um sol esplendoroso. Dizia o João:
- Agora que estás comigo, meu Lápis Azul, o meu sol é para todos!
 
Bernardete Costa (em memória duma utopia de Abril )
 
 
 


publicado por bernardetecosta às 18:53
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Segunda-feira, 13 de Abril de 2009
O COELHO DE PÁSCOA

Marta mora numa aldeia pequenina, mesmo no sopé da montanha.

Naquele dia de Primavera, sobre as gentes, o casario e as coisas cai uma luz desusada, soltando suspiros de ternura branca.
Tombando pelos muros e bordando as entradas das casas, os cachos dos lilases exalam perfumes estonteantes, ao mesmo tempo que salpicam de colorido suave a aldeia.
Também por entre o verde tenro, as 
pequeninas folhas das videiras entretêm-se
projectando a sombra rala sobre caminhos e quintais.
No adro da igreja, na torre imaculada, os sinos vibram toques argentinos evocando dias de festa.
 
- Marta, já estás pronta? – É a mãe que questiona do pequeno interior da casa - Despacha-te, ainda é preciso colher as flores...- acrescenta, denunciando pela voz a azáfama que é peculiar naquele dia festivo.
Marta, rosto redondo e gentil, encontra-se tomada por uma excitação invulgar. A festa da Páscoa perpassa-a de uma ternura especial. Ela sabe, aprendeu na escola, que Páscoa significa “passagem” da morte para a vida.
E como ela sente a vida! E também sabe que a mãe precisa da sua ajuda, essa que ela lhe pode dar, já que a sua robustez física lhe permite realizar trabalhos que, para a maioria das crianças da sua idade, poderiam ser considerados impróprios.
Acabadas as limpezas anuais - tem já nos joelhos uma aréola rosa que afaga com brevidade - corre pelos campos, cortando com a mão os pés floridos e perfumados das múltiplas flores que encontra.
Leva no regaço da saia um monte de flores, quando, de súbito, atravessa-se na sua frente um belíssimo coelho branco.
-Ó lindo coelho, não fujas de mim...- balbucia. E, de imediato, vê o animal refugiar-se numa pequena lura rente ao muro que divide e isola aquele campo onde acabara de colher as flores.
De repente, o coelho aproxima-se da abertura da sua casita, e uns olhitos vermelhos faíscam de curiosidade e de algum receio.
E é quando Marta se lembra! O coelho da avó! Sim, o coelho branco daquela história que a avó, já muito velhinha, lhe contava pela Páscoa:
 
“...todos os anos, no dia de Páscoa ou na semana que a antecedia, aparecia, correndo pelos campos e saltando pelos valados, um imaculado coelho branco, oriundo ninguém sabia de onde. O certo, é que sempre que surgia pela aldeia, todos ficavam a saber que animais e plantas brotariam numa explosão de vida! Era um ano de fartura. E, na encosta do monte, a aldeia assemelhava-se a uma enorme flor branca de pétalas abertas e viçosas!”, concluía a avó, recordando.
“Depois – acrescentava a avó - ,...depois o coelho branco deixara de aparecer.
Surgira a guerra – muitos dos homens da aldeia, como o teu avô, deixaram lá ficar a vida -, a fome, a miséria....Também o casario branco enegreceu sob os fogos deflagrados nas matas e o sol impiedoso de estios excessivamente secos crestou a terra abrindo-a em gretas...”
 
Marta desata a correr, ó mãe, ó mãe, grita entrando de roldão pela casa, o coelho branco..., o coelho... da... avó apareceu....!
A mãe olha o regaço vazio da filha (deixara tombar as flores quando avistara o coelho) e prepara-se para a repreender quando reflecte no que a criança diz: Seria verdade o que Marta dizia? O coelho da fertilidade, como era conhecido pelos antigos daquela aldeia, tinha reaparecido!?
Olha longe pelos montes e colinas e vê com nitidez aquela mancha verde delicada que cobre os campos, as matas, os quintais..., como se toda a natureza comungasse de luz e vida naquela Primavera que renascia.
E se fosse verdadeira a lenda do coelhinho? Se assim fosse?, interroga-se cheia de esperança.
 
Bernardete Costa
 
 
 
 


publicado por bernardetecosta às 23:44
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Sexta-feira, 20 de Março de 2009
A ESTRELA DA MANHÃ

Esta é a pequena história que vos fala de Maria Carolina. Uma menina loira e de rosto angelical onde se esboçavam a doçura e a tranquilidade de dois enormes lagos azuis.

Diariamente, ao amanhecer, Maria Carolina vislumbrava um ponto luminoso no céu já pincelado de azul. Chamava-lhe a “estrela da manhã”, porque dentre todas as outras era a que permanecia no firmamento ainda que já fosse manhã clara.
Olhava e ficava, como uma borboleta atraída pela luz de um candeeiro de rua, subjugada pela luminosidade cintilante daquela estrela. Esta, por entre os panos esfarrapados das nuvens, na brancura do dia que se inaugurava, piscava com intensidade, saudando-a: bom dia, Maria Carolina.
A nossa menina sorria e respondia, invariavelmente: bom dia, “estrela da manhã”. E parecia-lhe, sempre que o fazia, que da sua claridade de prata se soltavam três raios de luz que riscavam o espaço de nascente a poente como risos de fada.
Carolina via e ouvia, e aquela luz beijando o céu era para ela o cumprimento da estrela que assim pretendia comungar consigo as alegrias de um bom começo de dia. E lá partia feliz e saltitante para a escola.
Um dia, a professora falou de astros, e, claro, de estrelas. Foi quando Carolina resolveu confidenciar aos amigos e à mestra o seu segredo matinal.
Foi a chacota geral! De início, os olhares dos colegas viraram-se para ela entre incrédulos e curiosos. Mas ao verificarem o rosto da professora que sorria abanando a cabeça...
- Tem algum jeito, uma estrela a falar, comentou o Carlos, com aquele seu ar doutoral bem conhecido, sempre que assumia o papel do menino mais inteligente da turma. Todos sabemos o que são estrelas! São astros com luz própria, não são humanos, por isso não falam, ora essa! – adiantou por entre risadinhas.
Maria Carolina, envergonhada, permaneceu num mutismo cerrado durante o resto da manhã. Não acreditavam nela e sentia-se muito magoada! Ia lá ela inventar uma coisa dessas, já tinha nove anos, não era nenhum bebé!...
Chegada a casa, fechou-se no seu quarto o resto do dia. A mãe estranhou e indagou: Carolina, porque não vais brincar?
 
À noite, a menina deitou-se muito ansiosa. E se fosse uma simples ilusão? A agulha fininha da dúvida cravou-se-lhe no peito. Ela precisava de confirmar se a estrela falava mesmo. E fá-lo-ia no dia seguinte, muito cedo, pela manhã, quando acordasse e se dirigisse à janela do seu quarto.
A mãe deu-lhe as boas noites com o beijo do costume e ela ainda perguntou timidamente:
- Mamã, as estrelas falam?
- Bem, minha filha, falar, falar... Porquê? ouviste alguma? – inquiriu a mãe com um sorriso doce enquanto lhe acariciava a seda dos cabelos cor do sol.
Então, a nossa amiguinha contou-lhe o episódio que ocorria todos os dias, a sua pequenina troca de palavras com a “estrela da manhã”. Acreditas, mamã, acreditas? A mãe olhou-a durante alguns segundos e afagando o rosto oval da filha, disse:
- Olha minha filha, tudo pode acontecer, tudo pode existir: o Pai Natal, as fadas, os feiticeiros, os duendes, as princesas, os castelos encantados... e até a tua estrela. Se muito o desejarmos, as coisas que nos dão alegria, as mais fantásticas e maravilhosas podem acontecer, podem subsistir. Pois, se há uma estrela que te cumprimenta pela manhã, não achas que ela é muito educada e muito tua amiga para assim proceder?
- Obrigada mamã...obrigada mamã... - sussurrou Maria  Carolina com o sono a entrar devagarinho pelos olhos, cerrando-lhe as pestanas longas e sedosas.
 
 
 
 
 Bernardete Costa


publicado por bernardetecosta às 17:42
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O LIVRO PALHAÇO

Esta é uma história passada numa luminosa biblioteca, mesmo no centro duma cidade cujas ruas lembravam jardins de cameleiras coloridas.

E claro, como não podia deixar de ser, esta história fala-nos de livros. Mas livros muito especiais. Já vão saber porquê.
 
Estávamos no mês de Fevereiro, o mês do Carnaval. Uma fada aborrecida pela tristeza do Inverno transformou a natureza numa Primavera antecipada. E todas as árvores floriram e o sol incendiou o céu e brincou com os cabelos dos meninos.
 
Dizia eu que esta história fala-nos de livros.
Estavam estes muito bem arrumados e etiquetados nas diferentes prateleiras daquela biblioteca.
Como é compreensível, os meninos mexiam e remexiam em livros, principalmente naqueles cheios de gravuras e cores atrevidas e, ainda, noutros muito divertidos, onde se podiam ler histórias que falavam de fadas, duendes, animais fantásticos… e de magia até mais não!
Ora, havia um livro que, penso eu, por ser velho e bolorento, ninguém pegava nele. Ou então seria porque falava de histórias, é certo, mas da história dessa tal cidade. Assunto para gente crescida, diziam.
Por conseguinte, os meninos não lhe ligavam nenhuma. Porém, até se acotovelavam uns aos outros para lerem “O Livro dos Duendes”; um desses livros cheios de encanto e colorido.
 
- Ui! Ninguém me liga! – queixava-se o tal livro bafiento como um pano de pó depois de muito usado.
- Sou capaz de te resolver o problema – ouviu-se dizer mesmo em frente, na prateleira da Literatura Infantil.
- Quem me fala? – inquiriu com estranheza o livro “A História da Cidade”.
- Eu, aqui mesmo, tão perto de ti – respondeu “O Livro dos Duendes”. – E como podes calcular pelo meu título, possuo poderes mágicos capazes de remediar a tua tristeza.
Ao ouvir isto, o nosso livro pulou de contente:
- Como? Como? – quis saber.
- Com um só abanar duma das minhas folhas, transformo-te num palhaço vivo, muito divertido e capaz de fazer rir crianças e adultos. E agora que estamos no Carnaval…
- Isso é que era espectacular! – interrompeu - Nem que fosse por um só dia! – exclamou o livro “A História da Cidade”.
- Pois será assim mesmo. No dia de Carnaval, sairás daqui como um palhaço. Divertir-te-ás durante vinte e quatro horas. Mas terás de voltar ao teu lugar no fim desse tempo.
- Obrigado, grande amigo! Posso foliar pelo menos uma vez na vida... e aproveito para fazer uma limpeza a esta poeira toda!
 
E como foi prometido, assim aconteceu.
O livro “A História da Cidade”, transformado num vistoso e folgazão palhaço, percorreu as ruas, jardins, praças e, imaginem, até as escolas daquela cidade linda. Todos o adoraram. E foi um dia tão diferente e maravilhoso para ele que… pensou seriamente em não voltar para a biblioteca.
 
A noite caiu, as estrelas acenderam-se no céu como fogo de artifício e o nosso amigo, que é como quem diz o livro “A História da Cidade”, hesitava entre cumprir o acordado ou permanecer naquela vida de palhaço tão do seu agrado.
 
Mas prevaleceu a sua integridade. Cumpriu o que havia combinado.
À hora certa, recolheu ao seu lugar na prateleira da biblioteca. E foi com uma sensação de bem-estar que viu “O Livro dos Duendes” sorrir com satisfação.
 
Podem crer que no próximo Carnaval vou estar muito atenta a todos os palhaços que brincam pela cidade.
Quem sabe se…um deles será o livro “A História da Cidade”!
 
Bernardete Costa
 
 
                                  
 
 


publicado por bernardetecosta às 14:09
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